segunda-feira, 30 de junho de 2008

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Tirei a roupa

Tirei a roupa, olhei-me no espelho e vi um grande ponto de interrogação. Por quanto tempo continuaria a areia a escorrer na ampulheta? Mais do que a cena quotidiana que o espelho via, retalhos do passado e cismas do futuro teimavam em aparecer. As aparências iam mudando devagar, protegidas pelo vapor que escapa do chuveiro onde lavo minhas partes e minhas culpas. Escovar os dentes, ver quão desalinhado está o cabelo, aparar a barba, temperar a água do banho, passar o xampu e só então deixar o sabonete fazer o seu serviço. Depois, enxugar o corpo alto e cada vez mais volumoso. Todo dia ele faz tudo sempre igual, deve dizer a superfície metalizada e polida que foi feita para refletir imagens e não para escarafunchar a vida dos outros. Se acha muito inteligente, nessa paródia barata de Chico Buarque. Só falta me vir com Cecília Meirelles, ambígua história, de que sou o espelho e a trajetória... O importuno não se conforma em ficar restrito ao seu papel e se deleita com palpites e insinuações. Esse cabelo está mais grisalho, a barriga já foi bem menor. Onde se esconde o guerreiro triunfante de tantas noites de glória? Convivo com esse enxerido há muito tempo. O que mudou por fora ele pode observar. A forma nossa de cada dia nos dai hoje, a de ontem não existe mais. Do recheio ele só sabe a missa metade, pois não sou besta de me expor demais. Nem para mim mesmo. Olho para o reflexo, no meio da bruma, e me pergunto a cada dia quem é esse mamífero guloso, se já cumpriu o seu destino ou se ainda tem tempo para avançar em novas trilhas. Vejo naufrágios e apoteoses, sempre passageiros, só as fotografias e os filhos são definitivos. Encho-me de coragem, passo a toalha no vidro umedecido, ponho os óculos, penteio o cabelo, olho a figura recomposta e descubro mais uma vez que a vida vai recomeçar e que ainda há muito por fazer. (E.M., 11/06/2008)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Papo surreal

Um homem e uma mulher transam. Em que medida o homem percebe se a mulher gozou? A pergunta é de André Breton, dirigida a Ives Tanguy. O pintor e ex-marinheiro se incomoda, porque eu primeiro? Relê a questão, talvez para ganhar tempo, e sai pela tangente: numa medida muito frágil.

O mestre do surrealismo quer saber se Tanguy tem modos objetivos de avaliação. A resposta é sim, mas os tais métodos não são revelados.

Raymond Queneau, poeta e escritor, acha que não há como saber se a mulher gozou ou não. Para Jacques Prévert, depende da mulher. Indagado sobre meios objetivos de avaliação, o poeta e compositor responde com quatro sonoros sim, sim, sim, sim. Mas também não esclarece quais são esses métodos.

Benjamin Péret acredita que não há modo objetivo de saber se a mulher gozou. Breton então expõe sua teoria. Só há métodos subjetivos, nos quais se pode confiar na medida em que se tenha confiança na mulher envolvida.

A conversa ocorreu no dia 27 de janeiro de 1928 e foi publicada no numero 11 da revista Revolução Surrealista, de 15 de março de 1928.

O grupo liderado por André Breton organizou doze sessões de discussões livres, denominadas Pesquisas sobre a Sexualidade, entre janeiro de 1928 e agosto de 1932. A íntegra dos diálogos foi publicada pela Gallimard, em 1990. O organizador, José Pierre, anota que é um texto quase teatral, escrito e dirigido por André Breton, então com 32 anos.

Antonin Artaud veio uma vez, assim como Max Ernst. Paul Éluard cinco. Outros como Buñuel, Dali, René Char e Alberto Giacometti, embora bastante interessados nas questões do amor e da sexualidade, não apareceram. Foram 40 personagens ao todo, poucas mulheres.

A segunda sessão, em 31 de janeiro de 1928, contou com Aragon e Man Ray. Este, a certa altura, retomou a discussão seminal. Segundo o fotógrafo, a mulher sente necessariamente o momento exato do gozo do homem. Mas o homem só tem como referência a constatação da lassitude da mulher.

E se essa lassitude é simulada, pergunta Breton?

Pior para a mulher, diz Man Ray. Eu aceito seu jogo.

Paranapiacaba no dia da expedição mananciais

















Fotos Eduardo Muylaert, 01/06/06

Expedicionáios de Paranapiacaba


Flávia Soares fotografando o grupo, foto de Eliane Chinaglia.



Nosso Exército de Brancaleone, foto Flávia Soares.



sábado, 24 de maio de 2008

Legítima defesa

Recebi uma carta do diabo.
O danado se fez passar pelo meu marido. Dizia que tinha encontrado outra mulher e ia sair de casa. Contou que achara o calor que faltava em sua vida. Tinha até recuperado o tesão. Falou que me queria bem e que torcia para eu encontrar de novo a felicidade. Marcou hora para vir buscar as suas coisas, naquela noite mesmo. Resolvi fazer uma bela despedida. Abri uma garrafa de vinho. No segundo copo ele começou a olhar para o meu decote. Daí para chegar na cama foi um pulo. Faz tempo que o maldito não era tão tinhoso. Fizemos coisas que eu nem imaginava ser capaz. Depois, enquanto ele dormia, enfiei-lhe uma faca de cozinha entre as costelas. Achei que tinha me livrado do malvado para sempre. Agora estou aqui nesse inferno. Meu advogado jura que me tira, vai alegar legítima defesa.
(E.M. 05/2008)

domingo, 18 de maio de 2008

Mar de fotógrafos, à beira da represa.

Visita de Paulo Henriques Britto

E o autor se fez pessoa.

Do fundo da sala, reconheci a voz límpida de Gabriela pedindo para o autor ler mais um poema. Ela queria em sua mente gravar esse registro. Sensação curiosa, ler um texto e vislumbrar a voz do dono. Visualizar talvez não seja verbo adequado, “ouvidualizar” também soa estranho. Cada um de nós tem um modo personalíssimo de escandir as silabas e modular as frases, com ou sem chiado. Essa toada é registrada pelo cérebro, que acaba por atrelar o som ao escrito. Quantas vezes, ao ler uma apostila ou livro, não fomos perseguidos pela voz do professor que o escrevera,  contaminando nosso ato solitário de leitura? 

Paulo Henriques Britto é um carioca que não demonstra os 57 anos que carrega, talvez por viver  parte da existência numa esfera distante em que o tempo não corre e onde não existem problemas, só questões a serem propostas e desafiadas. Depois de falar de si e de sua obra com simpatia e desenvoltura, Britto pretendeu-se  pouco dotado para ler os próprios textos. Vencida a resistência inicial, começou como que timidamente com o primeiro poema de “Tarde”, sem dúvida uma espécie de confissão:

“No poema moderno, é sempre nítida

uma tensão entre a necessidade

de exprimir-se uma subjetividade

numa personalíssima voz lírica

 e, de outro lado, a consciência critica

de um sujeito que se inventa e evade,

ao mesmo tempo ressaltando o que há de

falso em si próprio – uma postura cínica,   

A platéia já estava conquistada, o pedido de bis foi atendido.  Por fim,  uma calorosa salva de palmas, como se dizia nos programas de auditório, coroou a leitura de “Paraísos Artificiais”, primeira crônica  do livro de mesmo nome. As crônicas são antigas, vêm dos anos 70 e foram sendo buriladas ao longo dos anos.

Paulo Henriques Britto deixou o Colégio Militar do Rio de Janeiro em 1968, auge do período repressivo. Foi parar na Califórnia, onde adquiriu uma segunda língua e se encantou com vanguardas e contestações, sem perder o agudo senso critico.

Começou estudando matemática, tentou cinema e acabou se consagrando como mestre das palavras, tradutor, poeta, contista e professor.

 A PUC da Gávea, no Rio, infelizmente para nós, consome cada vez mais seu tempo. Quem sabe de seu apostolado surjam novos talentos. Certo é que, para algumas traduções, só Britto está preparado, não só por seu enraizado conhecimento de inglês, mas pela paciência e persistência que o leva a passar anos trancado numa biblioteca para descobrir linguagens arcaicas que pudessem fazer justiça a um texto original.

Tem entre seus interlocutores habituais, por  correio eletrônico, figuras como John Updike e até mesmo o quase intangível Thomas Pynchon, que não se deixa fotografar e ninguém sabe onde encontrar.

Alguém perguntou a P.H. se não é desanimador traduzir para pessoas que sabem menos do que ele.  Provavelmente a grande maioria dos leitores anglófonos também entendem muito menos do que nosso tradutor. Diz a lenda bahiana que Ruy Barbosa foi para a Inglaterra ensinar inglês. Pode não ser verdade, mas Paulo Henriques Britto está preparado para esse feito.

Como pode um intelectual tão sofisticado, consagrado e premiado, ser ao mesmo tempo uma pessoa tão simples e acessível? Existem dois tipos de criadores, diz ele. Mozart nasceu feito e compunha admiravelmente aos dez anos de idade. Beethoven lutou muito no começo, mas à custa de esforço criou obras magníficas. Paulo Henriques se coloca nessa segunda posição, a dos que trilharam todo o caminho do aprendizado clássico, do respeito às regras de composição, dos padrões da matemática, para só então se dar ao luxo de romper alguns preceitos. Tornou-se, assim, um grande virtuoso, em qualquer das suas atividades.

Britto ama Proust e Machado, traduz Byron e adora Drummond, mas não  é incondicional de Olavo Bilac. Ironia do destino, compartilha com esse outro carioca, patrono do serviço militar,  o nome de seu último livro de poesias. Tarde  é obra recente, fruto do convívio com temas maduros e sofridos, como a morte e a doença dos mais velhos.

Figura surpreendente, esse Paulo Henriques Britto. Ao vivo, não se parece em nada com a foto da orelha do livro. Quem o vir na rua, imaginaria uma espécie de técnico de computação, um pouco alheio ao movimento da rua.

Na verdade, Paulo Henriques Britto está sempre computando,  a um só tempo completamente desapegado e totalmente conectado ao movimento do universo.

Nessa noite fria de quarta-feira  o grande autor, convidado do Marcelino, para nós ganhou voz e virou pessoa.

(Eduardo Muylaert, maio de 2008, 4500 caracteres com espaços)