quarta-feira, 11 de junho de 2008

Tirei a roupa

Tirei a roupa, olhei-me no espelho e vi um grande ponto de interrogação. Por quanto tempo continuaria a areia a escorrer na ampulheta? Mais do que a cena quotidiana que o espelho via, retalhos do passado e cismas do futuro teimavam em aparecer. As aparências iam mudando devagar, protegidas pelo vapor que escapa do chuveiro onde lavo minhas partes e minhas culpas. Escovar os dentes, ver quão desalinhado está o cabelo, aparar a barba, temperar a água do banho, passar o xampu e só então deixar o sabonete fazer o seu serviço. Depois, enxugar o corpo alto e cada vez mais volumoso. Todo dia ele faz tudo sempre igual, deve dizer a superfície metalizada e polida que foi feita para refletir imagens e não para escarafunchar a vida dos outros. Se acha muito inteligente, nessa paródia barata de Chico Buarque. Só falta me vir com Cecília Meirelles, ambígua história, de que sou o espelho e a trajetória... O importuno não se conforma em ficar restrito ao seu papel e se deleita com palpites e insinuações. Esse cabelo está mais grisalho, a barriga já foi bem menor. Onde se esconde o guerreiro triunfante de tantas noites de glória? Convivo com esse enxerido há muito tempo. O que mudou por fora ele pode observar. A forma nossa de cada dia nos dai hoje, a de ontem não existe mais. Do recheio ele só sabe a missa metade, pois não sou besta de me expor demais. Nem para mim mesmo. Olho para o reflexo, no meio da bruma, e me pergunto a cada dia quem é esse mamífero guloso, se já cumpriu o seu destino ou se ainda tem tempo para avançar em novas trilhas. Vejo naufrágios e apoteoses, sempre passageiros, só as fotografias e os filhos são definitivos. Encho-me de coragem, passo a toalha no vidro umedecido, ponho os óculos, penteio o cabelo, olho a figura recomposta e descubro mais uma vez que a vida vai recomeçar e que ainda há muito por fazer. (E.M., 11/06/2008)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Papo surreal

Um homem e uma mulher transam. Em que medida o homem percebe se a mulher gozou? A pergunta é de André Breton, dirigida a Ives Tanguy. O pintor e ex-marinheiro se incomoda, porque eu primeiro? Relê a questão, talvez para ganhar tempo, e sai pela tangente: numa medida muito frágil.

O mestre do surrealismo quer saber se Tanguy tem modos objetivos de avaliação. A resposta é sim, mas os tais métodos não são revelados.

Raymond Queneau, poeta e escritor, acha que não há como saber se a mulher gozou ou não. Para Jacques Prévert, depende da mulher. Indagado sobre meios objetivos de avaliação, o poeta e compositor responde com quatro sonoros sim, sim, sim, sim. Mas também não esclarece quais são esses métodos.

Benjamin Péret acredita que não há modo objetivo de saber se a mulher gozou. Breton então expõe sua teoria. Só há métodos subjetivos, nos quais se pode confiar na medida em que se tenha confiança na mulher envolvida.

A conversa ocorreu no dia 27 de janeiro de 1928 e foi publicada no numero 11 da revista Revolução Surrealista, de 15 de março de 1928.

O grupo liderado por André Breton organizou doze sessões de discussões livres, denominadas Pesquisas sobre a Sexualidade, entre janeiro de 1928 e agosto de 1932. A íntegra dos diálogos foi publicada pela Gallimard, em 1990. O organizador, José Pierre, anota que é um texto quase teatral, escrito e dirigido por André Breton, então com 32 anos.

Antonin Artaud veio uma vez, assim como Max Ernst. Paul Éluard cinco. Outros como Buñuel, Dali, René Char e Alberto Giacometti, embora bastante interessados nas questões do amor e da sexualidade, não apareceram. Foram 40 personagens ao todo, poucas mulheres.

A segunda sessão, em 31 de janeiro de 1928, contou com Aragon e Man Ray. Este, a certa altura, retomou a discussão seminal. Segundo o fotógrafo, a mulher sente necessariamente o momento exato do gozo do homem. Mas o homem só tem como referência a constatação da lassitude da mulher.

E se essa lassitude é simulada, pergunta Breton?

Pior para a mulher, diz Man Ray. Eu aceito seu jogo.

Paranapiacaba no dia da expedição mananciais

















Fotos Eduardo Muylaert, 01/06/06

Expedicionáios de Paranapiacaba


Flávia Soares fotografando o grupo, foto de Eliane Chinaglia.



Nosso Exército de Brancaleone, foto Flávia Soares.