terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O Houaiss é um perigo

O catatau, reconhecidamente culto e erudito, pode ser fonte de inúmeras complicações. Letra C, veja-se catatau. Informalmente usado em nosso País como coisa volumosa ou grande, especialmente livros e outras publicações. No Nordeste se aplica aos baixinhos, indivíduos de pouca estatura. No Rio de Janeiro pode ser também o pênis, embora trate-se de tabuísmo. O compadre Aurélio não registra tal palavra, relativa a acepção tabu, chula ou grosseira. Catatau pode ser também uma porção de coisas bem diferentes, entre as quais castigo físico ou pancada; tijolo; mexerico ou intriga; espada velha e ruim, ou curva e pequena; uma porção de qualquer coisa. Conforme a localização geográfica, melhor não por a mão num catatau. Letra A, abegoaria. Não, não é uma planta. Designa o lugar em que o abegão guarda o gado e os utensílios agrícolas. Pois é, abegão é o administrador ou feitor da quinta ou herdade que, segundo Picão, “só recebe ordens do amo, que o considera seu imediato representante nas fainas respectivas” (Através dos Campos, pág. 68). Já a abegoa pode tanto ser a mulher do abegão, como a que faz as suas vezes. É melhor que o próprio não confunda as duas significações, pois se trata como sua a mulher que lhe faz as vezes pode ocorrer uma estrupada, pequeno assalto ou combate. Talvez até um estrupício, grande ruído, barulho, ou fato ou problema de grandes proporções. As palavras são como as leis, ou certas doenças, às vezes pegam, outras não, ou então caem em desuso. As sonoridades enganam. Adultícia se refere aos emocional e intelectualmente maduros. Estultícia aos estúpidos, parvos, tolos, imbecis. O dicionário não indaga se há adultos estultos. Conforme a vizinhança, o sentido muda. Desconhecer essa lei é arriscar o pescoço. A abegoaria, onde o abegão guarda os animais, tem seu piso coberto de resíduos animais. Estes, depois de secos, viram estrume: “Basta viver honestamente, olhando para nós mesmos e não para a estrumeira que nos cerca”, aconselha Victorino de Almeida (História de Lamento, pág. 260). O adubo, é sabido, serve para fertilizar ou regenerar a terra. Pode ser também um condimento usado para dar sabor especial a uma iguaria. Melhor não perguntar à caprichosa cozinheira que adubo usou para dar tal sabor a determinado prato. Evitar também frases como – “A leitura é o adubo da inteligência”, há risco não agradar a um auditório pouco inclinado à erudição. Podem dizer do orador: –“Seus comentários irreverentes eram o adubo daquelas intermináveis reuniões”. Pois é, nem o orador vai saber que adubo é também o dito espirituoso que dá graça, enriquece alguma coisa. Melhor passar sem tal adubação. O dicionário pode ser um livro muito perigoso. (E.M.)

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